terça-feira, 12 de maio de 2015

Dia Internacional dos Museus




 Entrar no espírito da instalação é o mesmo que fazer parte de um acontecimento.

 Neste caso, esta instalação ocorre num jardim. Invoca, além de tudo o mais, um universo que tem a sua própria vida, o seu próprio tempo, o seu espaço, a sua respiração. O destino do conjunto de peças enquadra-se num lugar feito de luzes e sombras, espaços mais ou menos abertos, recônditos e secretos, silenciosos e cantantes, ou melhor, murmurantes.

 Temos pois uma cena dentro de um cenário. O diálogo que passa neste momento a existir reparte-se entre estas duas realidades, a «natural» e a poética (no sentido de artifício), ao mesmo tempo que nos convoca, enquanto o espectador a escutar estas “falas”.

 Há nesta instalação uma peculiaridade – como deveria existir em todas as instalações e produções artísticas – que se manifesta na sensação estranha e clara de que tudo tem o sentido real de um sonho, da visualização de uma cena que se passa na mente da artista e que se projecta na beleza e precisão das peças e do «decor» do palco (cenário primordialmente mental) e que revela os seus pensamentos visuais.

 Esta fantasia meio mergulhada do lago, meio esvoaçante no ar, faz viver “cá fora” o que está “lá dentro”. Se nos concentrarmos nas figuras que trazem flores na cabeça (tema recorrente na obra da escultora Isabel de Andrade), apercebemo-nos da complexidade das emoções e dos pensamentos que evoca e que se espelham na encenação em seu redor. O breve espelho de água é mesmo um espelho, uma linha de superfície entre um lado de cá e um lado de lá, um mundo submerso e um externo. E a figura que se enlaça, sobretudo na cabeça, ao que resta de um tronco, renasce como puro universo interior, como vida que só o misterioso lugar das ideias e dos sentimentos pode conter. E os peixes saltam em alegria e cor, perfeitíssimos na sua forma arduamente trabalhada, enquanto a mente se revela como coisa que nasce e renasce dos seus sonhos mais íntimos, transmitem a ideia de peças que dançam a celebrar a vida.

 Como dizia Leonardo da Vinci, a arte é uma coisa mental. Instala-se neste lugar uma cena de beleza e inteligência que é preciso saber olhar. E escutar.

(José Pedro Matos Fernandes)

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